Quando uma empresa entra em processo de falência, um dos impactos mais imediatos e significativos recai sobre os seus acionistas. Investir em ações envolve assumir riscos, e a possibilidade de a companhia enfrentar dificuldades financeiras graves está sempre presente, mesmo que pareça remota no momento da compra dos papéis. Entender o que acontece com ações em falência é fundamental para qualquer investidor que deseja tomar decisões mais conscientes e proteger seu patrimônio.
A falência de uma empresa não é um evento repentino, mas sim o resultado de um período prolongado de problemas financeiros, má gestão, mudanças no mercado ou crises econômicas. Quando a situação chega ao ponto de não haver mais condições de manter a operação e honrar compromissos, a lei prevê que os bens da companhia sejam liquidados para pagar credores, seguindo uma ordem de prioridade definida. Nesse cenário, as ações passam por uma transformação drástica no seu valor e no seu papel para o investidor.
O Impacto Imediato no Valor das Ações
Assim que a falência é oficialmente anunciada ou o processo judicial é aberto, o valor de mercado das ações tende a despencar rapidamente. Isso acontece porque os investidores reagem de forma imediata à notícia, buscando se desfazer dos papéis antes que percam toda a liquidez. A desvalorização pode ser tão intensa que, em poucas horas, as ações passem de cotações regulares para valores simbólicos, sem praticamente haver interessados na compra.
Esse movimento é impulsionado pelo entendimento de que, no processo de falência, os acionistas comuns são os últimos da fila para receber qualquer recurso resultante da venda dos ativos da empresa. Antes deles, entram credores trabalhistas, fornecedores, instituições financeiras e detentores de dívidas garantidas. Em muitos casos, depois de atendidas essas prioridades, não sobra nada para os acionistas.
Suspensão da Negociação na Bolsa
Outro passo comum quando uma empresa entra em falência é a suspensão ou exclusão de suas ações da bolsa de valores. As autoridades responsáveis pelo mercado podem interromper a negociação para evitar movimentos especulativos extremos e proteger investidores desavisados.
A exclusão da listagem também pode ocorrer por questões regulatórias, já que empresas em falência geralmente deixam de atender requisitos mínimos de governança, capital ou divulgação de informações. Quando isso acontece, a ação deixa de ser negociada no mercado tradicional e, em alguns casos, pode migrar para mercados secundários com liquidez extremamente baixa, onde é muito mais difícil encontrar compradores.
A Ordem de Pagamento na Falência
Para compreender melhor por que as ações tendem a perder valor em uma falência, é essencial conhecer a ordem de pagamento estabelecida pela lei. No processo de liquidação, os recursos obtidos com a venda dos ativos da empresa são distribuídos na seguinte ordem:
- Credores trabalhistas – salários atrasados, indenizações e benefícios.
- Credores com garantias reais – bancos ou instituições que possuem garantias sobre bens específicos.
- Credores quirografários – fornecedores e outros credores sem garantias.
- Acionistas preferenciais – recebem antes dos acionistas ordinários, mas apenas após o pagamento integral dos credores.
- Acionistas ordinários – últimos na fila e, na maioria das vezes, não recebem nada.
Essa sequência explica por que, em uma falência, a expectativa de retorno para o acionista é mínima. Na prática, os ativos da empresa quase sempre são insuficientes para cobrir todas as dívidas, e os papéis acabam perdendo qualquer valor econômico.
Ações Preferenciais x Ordinárias em Falência
A diferença entre ações preferenciais e ordinárias ganha relevância nesse contexto. Embora as ações preferenciais ofereçam prioridade no recebimento de dividendos e, em alguns casos, vantagens no momento da liquidação, essa prioridade não garante que haja recursos disponíveis.
No cenário de falência, mesmo os detentores de ações preferenciais podem acabar sem receber nada, pois os credores têm precedência sobre todos os acionistas. A vantagem real dessas ações é mais evidente em casos de liquidação voluntária, quando a empresa ainda possui patrimônio líquido positivo.
Liquidação dos Ativos e Destino dos Recursos
Durante o processo de falência, a empresa vende seus bens para levantar recursos que serão distribuídos entre os credores. Isso inclui imóveis, maquinário, estoques, marcas, patentes e outros ativos tangíveis e intangíveis.
O processo de venda pode levar meses ou anos, e o valor obtido nem sempre corresponde ao valor contábil registrado, já que, em situações de urgência, ativos tendem a ser vendidos por preços menores. Essa redução de valor é outro fator que reduz as chances de sobra para os acionistas.
Possibilidade de Recuperação Judicial
Nem sempre a falência é o fim definitivo para a empresa. Em alguns casos, o processo pode ser substituído por um plano de recuperação judicial, no qual a companhia tenta renegociar suas dívidas e manter as operações.
Se o plano for bem-sucedido, as ações podem até se recuperar parcialmente, embora isso seja raro. Na maioria das situações, o investidor precisa estar preparado para grandes oscilações e para a possibilidade de que a empresa não consiga se reerguer.
Impacto Fiscal para o Investidor
Para o investidor, o prejuízo com ações de empresas que entraram em falência pode, em alguns casos, ser usado para compensar ganhos de capital obtidos em outros investimentos. Essa compensação é permitida em determinadas jurisdições e pode reduzir o impacto fiscal da perda.
É importante guardar documentos e registros da compra das ações e do momento em que elas perderam valor para comprovar a operação. Essa prática ajuda a otimizar a gestão tributária e minimizar o efeito negativo no patrimônio total.
Lições para o Investidor
A falência de uma empresa e o colapso de suas ações deixam lições valiosas para o investidor:
- Diversificação é fundamental – colocar todo o capital em um único ativo aumenta o risco de perda total.
- Acompanhar indicadores financeiros – balanços, endividamento e fluxo de caixa são sinais importantes sobre a saúde da empresa.
- Observar tendências do setor – mudanças regulatórias, tecnológicas ou econômicas podem afetar drasticamente a competitividade da empresa.
- Gerenciar riscos – definir limites de perda e realizar lucros parciais ajuda a proteger o capital.
Investir exige não apenas buscar oportunidades de ganho, mas também proteger-se de riscos previsíveis e inesperados.
Casos de Ações que Viraram “Pó”
O termo “virar pó” é frequentemente usado para descrever ações que perderam praticamente todo o seu valor. Isso acontece quando o preço do papel cai para níveis tão baixos que, mesmo multiplicando a quantidade de ações compradas, o retorno financeiro não compensa.
Em situações de falência, é comum que os preços sejam reduzidos a centavos, e, em alguns casos, a empresa emite novos papéis para levantar recursos, diluindo ainda mais a participação dos acionistas existentes. Para quem permanece com essas ações, a chance de recuperação é mínima.
Como Reduzir o Risco de Investir em Empresas Vulneráveis
Evitar empresas com alto risco de falência exige atenção e disciplina. Algumas práticas ajudam o investidor a reduzir as chances de se envolver em situações desse tipo:
- Analisar o histórico de lucros e prejuízos – empresas que acumulam resultados negativos por anos apresentam risco elevado.
- Avaliar a estrutura de dívida – altos níveis de endividamento podem comprometer a capacidade de operação.
- Observar a gestão e governança corporativa – más práticas de gestão aumentam o risco de crise.
- Monitorar sinais de alerta no mercado – queda acentuada no preço das ações, mudanças na diretoria e atrasos em divulgações financeiras podem indicar problemas.
O Papel da Psicologia no Investimento
A reação emocional do investidor diante de notícias negativas pode determinar o tamanho da perda. Muitos seguram as ações na esperança de recuperação, mesmo quando os fundamentos mostram o contrário. Esse fenômeno, conhecido como viés da esperança, pode levar a perdas ainda maiores.
Manter uma postura racional, baseada em dados e não em expectativas infundadas, é essencial para preservar o capital. Ter um plano de saída previamente definido ajuda a agir de forma rápida e assertiva.
Conclusão
O que acontece com ações em falência é um exemplo claro de como o risco é parte inseparável do mercado de capitais. Quando uma empresa chega ao ponto de encerrar suas atividades por insolvência, os acionistas comuns raramente recuperam o investimento, e os papéis tendem a perder totalmente o valor.
Esse cenário reforça a importância de uma estratégia de investimento sólida, que envolva diversificação, análise constante e gestão de risco. Embora não seja possível eliminar totalmente a chance de investir em uma empresa que venha a falir, é viável reduzir esse risco e proteger o patrimônio com decisões informadas e disciplinadas.
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